terça-feira, novembro 09, 2004


No hospital

Meia leca austero, bem bojudinho e vigoroso, convalesce da cirurgia com o ar vagamente vexado de quem foi traído por uma vesícula ainda dentro do prazo de garantia. O sobrolho severo e a quietude composta de uma surdez incipiente realçam o distanciamento com que se submete às vicissitudes do internamento e à indignidade da avaria. Sim, que setenta e três anos de vida não fazem mossa em apêndice de qualidade.

À sua volta borboleteiam, em afãs mitigadores, cinco filhos, respectivos consortes e meia grosa de netos adultos. Todos – mesmo os afins, por bizarro acaso de osmose cromossomática – se lhe assemelham: rodinhas baixas, rotundos, severos e industriosos. Em todos se sente a preocupação da descoberta da falibilidade de um esteio muito amado. E a todos o bojudinho, qual ilha de calma dispéptica, trata de forma algo ausente: de facto, de facto, ele nem está ali, quanto mais incapacitado, quanto mais precisando de ajuda.

A atitude muda subtilmente quando a prole lhe traz a mulher de visita: pronto desperto, endireita as costas e abre o peito ufano, exsudando acuidade. Ela tem noventa e um anos e é bonita, muito bonita. Ficam sentados lado a lado em torrente de comunicação táctil e silenciosa. Há sempre entre ambos um contacto de ombro, de braço, ou de coxa, uma área de fusão que torna o par na unidade em que o orgulho dele nela e a certeza dela nele se encontram e confundem.

E quando a hora da visita termina, fica uma certeza no ar: o mundo passou ao modo de suspensão. Ich bin ein Screen Saver...